A morte não é o esquecimento.
O esquecimento solapa as feridas,
abranda.
A morte não.
Ela é um silêncio esquizofrênico que,
como não sale calar,
grita.
sábado, 13 de junho de 2009
terça-feira, 9 de junho de 2009
Herdeiras de Penélope

Minha avó era mulher de pescador. Quando seu homem se costurava em barco nas dobras do mar. Quando a chuva fazia grandes cicatrizes no céu. Quando o sol não cessava de, obtuso, cruzar dia após dia o mesmo céu, ela esperava.
Eutímia escrevia sua volta nas roupas sujas que, surradas contra as pedras, aspergiam gotas como se pétalas de flores enfraquecidas. As nódoas se desfaziam na violência das pedras, mergulhavam nos rio, e este, desembocava, já doce e cândido do mar. Na volta, os peixes graúdos sobre a mesa.
Minha mãe casou-se com a vida. Era um homem em seus contornos bem limitados, mas era também a vida, um baco carioca que perdia-se na embriaguez do mundo. Trabalhava feito um feroz. E comia com as mãos sôfregas lascas inteiras de noite e de luar. E ela o esperava. Enquanto ele despegava-se das sereias outras. Quando cessava, no clarear, o samba. Quando era, finalmente, a hora de trabalhar. Ela esperava.
A porta sempre aberta a sua chegada, num feitiço muito dela, noite a dentro: porta aberta e lua alta. No certo momento, a porta rangia, se ouviam dois gritos e um silêncio. Ele chegou.
Eu casei-me com o mar de ondas e seu porto. Casei-me com o som da música e o seu silêncio. Espero sempre, como é mesmo do feminino esperar. Mas espero - e este é meu feitiço - chamando o seu nome, pelos cantos da casa, nas paredes, na mesa, na minha cama. E cada grito que dou por seu nome, mais perto chego de meu Odisseu.
Com meu chamado - sereia que sou - cessam os mares bravios, o vento se sopra a meu favor sob o céu limpo, e eis que, de pés lavados, ele aqui está.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Oração pelos meus inimigos

Querida mãe,
Como sabes, tenho pouco sangue nos olhos, raiva pouca, que se consome toda em si, sem mácula mais pra dela dizer, vez que sofro da memória para as coisas que doem. Sei que no caminho que traço, ainda que olhando atenta ao chão marcado, sempre piso cá e lá, num dedo solto de sentimento, numa aba esparramada de chinelas, piso em medos, invejas, e mais sabe-Deus-o-quê. E há sempre quem não me perdoa a existência...
Se duas broncopneumonias não me mataram, abalaram apenas os pulmões, me dando um respiro – como um choro – abafado; se atravessei quase imune mortes, perdas, desamparos; se suportei estar trancada sempre pelo lado de fora das amizades, das brincadeiras e dos olhares cúmplices; não há de ser um mal agouro, um pesar tristonho que me derrubará.
Mãe, já pensei muito em pedir perdão, confessando erros, fazendo promessas. Mas há inimigo meu que mal suporta me olhar. E tenho tanta pena de sua dor desconsolada, de seu ódio que, como um doido, se surra na escuridão, que venho pedir, não por mim, mas por eles, sua misericórdia.
Mãe, dá a estes que me odeiam, me desgostam ou, simplesmente, não se dão comigo, a oportunidade da alegria. Realiza hoje, Mãe amada, um seu desejo há muito esperado, faz para eles como se para mim fosse, e é com este coração fraterno que lhe peço.
Venho lhe rogar, humildemente, o seu Amor de Mãe para estas pessoas. E clamo por seu nome para que os tome em seus braços, os console, lhes dê o choro ou o sorriso de que necessitam para que possam eles, satisfeitos, abrigados e sanados, relevar meus erros (in)conscientes e, finalmente, se esquecer de mim
Grata estou, Mãe querida, pela sua Misericórdia.
Como sabes, tenho pouco sangue nos olhos, raiva pouca, que se consome toda em si, sem mácula mais pra dela dizer, vez que sofro da memória para as coisas que doem. Sei que no caminho que traço, ainda que olhando atenta ao chão marcado, sempre piso cá e lá, num dedo solto de sentimento, numa aba esparramada de chinelas, piso em medos, invejas, e mais sabe-Deus-o-quê. E há sempre quem não me perdoa a existência...
Se duas broncopneumonias não me mataram, abalaram apenas os pulmões, me dando um respiro – como um choro – abafado; se atravessei quase imune mortes, perdas, desamparos; se suportei estar trancada sempre pelo lado de fora das amizades, das brincadeiras e dos olhares cúmplices; não há de ser um mal agouro, um pesar tristonho que me derrubará.
Mãe, já pensei muito em pedir perdão, confessando erros, fazendo promessas. Mas há inimigo meu que mal suporta me olhar. E tenho tanta pena de sua dor desconsolada, de seu ódio que, como um doido, se surra na escuridão, que venho pedir, não por mim, mas por eles, sua misericórdia.
Mãe, dá a estes que me odeiam, me desgostam ou, simplesmente, não se dão comigo, a oportunidade da alegria. Realiza hoje, Mãe amada, um seu desejo há muito esperado, faz para eles como se para mim fosse, e é com este coração fraterno que lhe peço.
Venho lhe rogar, humildemente, o seu Amor de Mãe para estas pessoas. E clamo por seu nome para que os tome em seus braços, os console, lhes dê o choro ou o sorriso de que necessitam para que possam eles, satisfeitos, abrigados e sanados, relevar meus erros (in)conscientes e, finalmente, se esquecer de mim
Grata estou, Mãe querida, pela sua Misericórdia.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Para mim e para todos nós
dentro de si, um início.
"...Mas nem sempre é necessário tornar-se forte.Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima a qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda"
(Merleau-Ponty)
(Merleau-Ponty)
Deus, como venho fazendo isso...nem sempre por querer, uma vez que a tristeza vem de aluvião e domina o espaço, a cena, o olhar. Mas venho tentando me compreender, me dar a chance de ser vil, de ser menor, de não entender o mundo e as pessoas que estão por dentro dele. Ando compreendendo que sou mesmo fraca, e isto não me envergonha tanto quanto antes, sou mesmo menor, e isto não me diminui tanto diante dos outros, nem diante de mim.
Tem dias que choro até ficar branda. Tem horas em que não posso chorar, e isso é muito doloroso...tem horas em que espero, e me preparo de corpo inteiro, para a facada do inimigo, mas, aí, ele me dá um sorriso amigo tão acolhedor, que me abro primaveril, para as abelhas com seu ferrão.
O que eu mais queria, como Pequena Flor uma vez quis, era não ser devorada pelo mundo...
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Dona Olegária

"Deus te fez, Deus te crou, Deus te livre das vistas que mau te olhou.
Com dois te botaram, com três eu tiro, com os poderes de Deus,
da Virgem Maria e de Jesus de Nazaré,
seu filho concebido sem mágoa e sem pecado."
**
Quando era pequena era cheia de achaques... Hoje ainda sou, mas não tenho mais a rezadeira que me tirava os males do corpo e os olhos de mal-olhar.
Ainda me falta, no pedaço oco da lembrança, indagar a minha mãe quais os motivos de, vez por outra, eu ser rezada. Mas o que não se pode esquecer é a sala meio escura, com Cosme e Damião ao alto, velas queimando o ar com sua fumaça preta, e os olhos daquela mulher: Dona Olegária.
Lembro, certa vez, devia ser mesmo caso de urgência, meu pai me levando nos braços e me segurando enquanto as folhas comiam meu corpo como pulgas de dentes finos, algo se ouvia da voz calejada de tanto caminhar pelas mesmas palavras, os dedos finos me dando volta no corpo, unhas desleixadas e crescidas sem regras, umas mais afiadas que as outras.
Na imagem que traço daquele espaço, vejo uma tapera de palhas estranhas, cheiro de feijão sempre ao fogo, galinhas ciscando o chão, nervosas; lembro dos vestidos sempre acinzentados de flores descoloridas e dos olhos, grandes, no seu branco contaminado por veias finas e uma bola mágica, negra e soberana brilhando na moldura meio cinza onde flutua a memória e o incenso queimado na lata de leite Ninho.
Queria, hoje de novo, Dona Olegária me rezando em voz sussurrada, me espancando com folhas já murchas e queimando minha sola dos pés no vapor cheiroso do incenso. Ali estava o antídoto para todas as dores, o espaço mágico de uma casa que se apagou, na ploriferação bacteriológica das favelas, do horizonte da casa antiga.
Judas em Sábado de Aleluia
Na casa grande, mal-dividida e sempre em construção de Nova Brasília de Itapuã, os tristes festejos da Semana Santa eram atravessados por uma ritualística profana profundamente sagrada.
Na sexta-feira, quando o silêncio retumbava cego confrontando-se com as paredes de casa, a vida se dava em passos pequenos, as cores mornas ornavam os corpos com roupas velhas, já surradas; a televisão, independentemente de sua programação, naquele dia estava escanteada, gestos brandos, fala baixa, nada de ligar a radiola ou encher a manilha, afinal, a chuva e as cores cinzas pelo céu também compunham o ritual da tristeza. A cozinha, entretanto, pulsava nas cores douradas do dendê e no som do coco seco quebrado no cimento duro para, mais tarde, triturado, regar a moqueca de peixe com caramuru (espécie de cobra d’água pescada por painho nas locas das pedras da praia de Itapuã). No prato, sempre fundo, o arroz branco e bem temperado com alho era banhado pelo caldo grosso do feijão de leite, que escorria nodoso debaixo da moqueca fumegante. Sobre eles, a farinha ajudava os dedos rápidos a pilar o bolo de pirão devorado com sofreguidão das mãos sempre limpas de mainha.
Mas nada disso acontecia antes do outro ritual, um que começava sempre com uma ligação para vovó, para minhas tias e perdurava durante toda a manhã, quando as ligações dos familiares rebentavam em lágrimas e pedidos sinceros de desculpas: sexta-feira santa é o dia do perdão. Não se briga, não se diz palavrão e quem xinga a mãe vira cavala... E aqui ressoa a voz da narradora da história da menina que destratou a mãe e virou cavala, não égua, cavala, gritando, enquanto voava por cima da casa: “cavala, cavala, cavala!”.
Quanto aos xingamentos aos pais, me parecia, estavam liberados.
Após o almoço o silêncio do filme bíblico assistido no escuro da sala era violado apenas pelo pagode sujo dos bêbados da rua, que atiçavam suas vozes desafinadas contra as janelas e portas: todas fechadas.
O sábado de aleluia despertava brilhante, de boca em boca deslizava o burburinho sobre a queima do Judas de Seu Zuza, o dono da padaria: o rico, dentre os pobres. Aguardávamos a queima da noite roendo os restos a moqueca da véspera, a esta altura mais gostosa, e já ouvindo ao longe algum som, algum riso.
À noite, painho subia conosco a rua de ladeira íngreme, no meio, uma coluna de madeira sustentava o Judas. Num dado ano ele foi batizado de Fernando J. , nome de um péssimo prefeito de Salvador. Havia, acima da boca riscada com tinta acrílica vermelha (tomada emprestada na casa de Tonho, fofoqueiro-mor e pintor do bairro), um bigode ralo que, plantado no rosto pálido feito com uma camisa velha, fazia conjunto com os óculos e a imitação de um paletó marrom, quase preto.
Saíamos alegres para ver o Judas. Antes da queima, todos admiravam o sujeito, contavam histórias escabrosas sobre sua maldade e botavam reparo sobre com quem da comunidade o tal se parecia. Era uma catarse coletiva: os homens davam pauladas nas pernas do Judas e nós, crianças, podíamos atiçar pedras nele sem medo, pois ali a vingança era a tônica, parecia que ali o que se queimava era o Judas cotidiano de cada um.
Quando finalmente se tocava o fogo e estouravam os fogos presos às mãos, cabeça e enfiados no furico do Judas, as moças maiores aproveitavam a distração dos pais e corriam para os becos para um namoro sôfrego, e desregrado, já que ali era o espaço da redenção universal e os beijos, mãos e roçar de sexos que ali se davam jamais resultariam num filho, pois que, ali, todo pecado estava automaticamente perdoado: fora já eleito o primordial pecador.
Depois, na leitura do testamento de Judas, quando o espólio feio e pobre era distribuído pela vizinhança, as mulheres que não trabalhavam de dia, também chamadas pelas que trabalhavam (de maneira absolutamente politicamente incorreta) de “nigrinhas” (ainda que não fossem negras) cheias de si, soltavam grandes e finos urros, batiam nas coxas grossas e, a cada batida, os seios fartos desabrigados de sutiã balançavam ante os olhos dos pais de família, que, certamente, fariam hora-extra ali na noite de domingo de Páscoa...
Depois, redimidos todos, lavados e salvos, retomávamos as brigas, os sons, os trabalhadores, possíveis bêbados do sábado, iam de olhos vermelhos ladeira abaixo buscar o ônibus das cinco e meia.
E o mundo se entregava a nós todos, limpo e imaculado.
Na sexta-feira, quando o silêncio retumbava cego confrontando-se com as paredes de casa, a vida se dava em passos pequenos, as cores mornas ornavam os corpos com roupas velhas, já surradas; a televisão, independentemente de sua programação, naquele dia estava escanteada, gestos brandos, fala baixa, nada de ligar a radiola ou encher a manilha, afinal, a chuva e as cores cinzas pelo céu também compunham o ritual da tristeza. A cozinha, entretanto, pulsava nas cores douradas do dendê e no som do coco seco quebrado no cimento duro para, mais tarde, triturado, regar a moqueca de peixe com caramuru (espécie de cobra d’água pescada por painho nas locas das pedras da praia de Itapuã). No prato, sempre fundo, o arroz branco e bem temperado com alho era banhado pelo caldo grosso do feijão de leite, que escorria nodoso debaixo da moqueca fumegante. Sobre eles, a farinha ajudava os dedos rápidos a pilar o bolo de pirão devorado com sofreguidão das mãos sempre limpas de mainha.
Mas nada disso acontecia antes do outro ritual, um que começava sempre com uma ligação para vovó, para minhas tias e perdurava durante toda a manhã, quando as ligações dos familiares rebentavam em lágrimas e pedidos sinceros de desculpas: sexta-feira santa é o dia do perdão. Não se briga, não se diz palavrão e quem xinga a mãe vira cavala... E aqui ressoa a voz da narradora da história da menina que destratou a mãe e virou cavala, não égua, cavala, gritando, enquanto voava por cima da casa: “cavala, cavala, cavala!”.
Quanto aos xingamentos aos pais, me parecia, estavam liberados.
Após o almoço o silêncio do filme bíblico assistido no escuro da sala era violado apenas pelo pagode sujo dos bêbados da rua, que atiçavam suas vozes desafinadas contra as janelas e portas: todas fechadas.
O sábado de aleluia despertava brilhante, de boca em boca deslizava o burburinho sobre a queima do Judas de Seu Zuza, o dono da padaria: o rico, dentre os pobres. Aguardávamos a queima da noite roendo os restos a moqueca da véspera, a esta altura mais gostosa, e já ouvindo ao longe algum som, algum riso.
À noite, painho subia conosco a rua de ladeira íngreme, no meio, uma coluna de madeira sustentava o Judas. Num dado ano ele foi batizado de Fernando J. , nome de um péssimo prefeito de Salvador. Havia, acima da boca riscada com tinta acrílica vermelha (tomada emprestada na casa de Tonho, fofoqueiro-mor e pintor do bairro), um bigode ralo que, plantado no rosto pálido feito com uma camisa velha, fazia conjunto com os óculos e a imitação de um paletó marrom, quase preto.
Saíamos alegres para ver o Judas. Antes da queima, todos admiravam o sujeito, contavam histórias escabrosas sobre sua maldade e botavam reparo sobre com quem da comunidade o tal se parecia. Era uma catarse coletiva: os homens davam pauladas nas pernas do Judas e nós, crianças, podíamos atiçar pedras nele sem medo, pois ali a vingança era a tônica, parecia que ali o que se queimava era o Judas cotidiano de cada um.
Quando finalmente se tocava o fogo e estouravam os fogos presos às mãos, cabeça e enfiados no furico do Judas, as moças maiores aproveitavam a distração dos pais e corriam para os becos para um namoro sôfrego, e desregrado, já que ali era o espaço da redenção universal e os beijos, mãos e roçar de sexos que ali se davam jamais resultariam num filho, pois que, ali, todo pecado estava automaticamente perdoado: fora já eleito o primordial pecador.
Depois, na leitura do testamento de Judas, quando o espólio feio e pobre era distribuído pela vizinhança, as mulheres que não trabalhavam de dia, também chamadas pelas que trabalhavam (de maneira absolutamente politicamente incorreta) de “nigrinhas” (ainda que não fossem negras) cheias de si, soltavam grandes e finos urros, batiam nas coxas grossas e, a cada batida, os seios fartos desabrigados de sutiã balançavam ante os olhos dos pais de família, que, certamente, fariam hora-extra ali na noite de domingo de Páscoa...
Depois, redimidos todos, lavados e salvos, retomávamos as brigas, os sons, os trabalhadores, possíveis bêbados do sábado, iam de olhos vermelhos ladeira abaixo buscar o ônibus das cinco e meia.
E o mundo se entregava a nós todos, limpo e imaculado.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Do instinto como estratégia
Um rio não planeja, submisso à possibilidade da terra, os caminhos por onde, em riacho, ele irá abrindo caminho para sua água caudalosa.
Com isso, afirmo, ora ciente, diante dos inúmeros tabuleiros que a vida coloca ante a mim, que não sei jogar. Se jogo é estratégia, planejamento, antecipação, capacidade de olhar o outro como inimigo, oponente, obstáculo: não sei jogar.
Isso às vezes me destrói. Me espanto com a quantidade de gente que joga, delibaradamente, com tudo. Diante de si, amizades negócios, uma cerveja gelada na esquina, uma confissão: tudo é jogo.
Eu, por meu turno, já tentei, e muito, e sempre perco: xadrez, dama, truco, paciência...até diante do computador as regras do jogo me parecem mistérios insolúveis que, apenas, adiam a cena que, a mim, mais me importa: o momento em que, findo o jogo, cessam as cartas de rolar sobre a mesa e nos sobram as duas mãos vazias.
A regra primordial do meu jogo é a minha intuição, é o meu afeto. Com os ouvidos herdados de meu pai, um imponente caçador, ausculto os sons que vêm da floresta fechada, atiro certeira flecha que, no momento certo, alcançará o alvo, crendo, como muito se diz na minha terra, que tudo deve ser entregue à Divindade maior: o Tempo.
Quando olho em volta, vejo jogadores de olhos tristes, cegos ao caminho óbvio, do amor aberto e puro que nos atravessa. E ante tantas estradas que nos levam ao cerne que brilha no coração do outro, os jogadores caminham sozinhos pelos atalhos escuros onde a luz não penetra.
E não entendem que, às vezes, mesmo quando se ganha, se perde.
Com isso, afirmo, ora ciente, diante dos inúmeros tabuleiros que a vida coloca ante a mim, que não sei jogar. Se jogo é estratégia, planejamento, antecipação, capacidade de olhar o outro como inimigo, oponente, obstáculo: não sei jogar.
Isso às vezes me destrói. Me espanto com a quantidade de gente que joga, delibaradamente, com tudo. Diante de si, amizades negócios, uma cerveja gelada na esquina, uma confissão: tudo é jogo.
Eu, por meu turno, já tentei, e muito, e sempre perco: xadrez, dama, truco, paciência...até diante do computador as regras do jogo me parecem mistérios insolúveis que, apenas, adiam a cena que, a mim, mais me importa: o momento em que, findo o jogo, cessam as cartas de rolar sobre a mesa e nos sobram as duas mãos vazias.
A regra primordial do meu jogo é a minha intuição, é o meu afeto. Com os ouvidos herdados de meu pai, um imponente caçador, ausculto os sons que vêm da floresta fechada, atiro certeira flecha que, no momento certo, alcançará o alvo, crendo, como muito se diz na minha terra, que tudo deve ser entregue à Divindade maior: o Tempo.
Quando olho em volta, vejo jogadores de olhos tristes, cegos ao caminho óbvio, do amor aberto e puro que nos atravessa. E ante tantas estradas que nos levam ao cerne que brilha no coração do outro, os jogadores caminham sozinhos pelos atalhos escuros onde a luz não penetra.
E não entendem que, às vezes, mesmo quando se ganha, se perde.
domingo, 29 de março de 2009
A Henrique Se há aí rua de frio chão, noite morta e lua escura, há aqui um jardim desolado de flores desabridas, um sol tenso, carcomendo as bordas dos dias, e estes passam equilibrados numa corda fina que apenas tangencia a sua ausência. Os ponteiros obsedados não enxergam os trilhos por onde passam as horas, esquecidos, descomem o tempo e o sol que chega anuncia um novo que se repete: longe, o tempo (este triste que marca os dias) é senil. Há sempre olhos de não ver e bocas enormes de dentes só lâmina talhando a paisagem e narrando o mundo que à volta corre. Vejo as pessoas como num filme estranho e antigo, cinema quase mudo, personagens inconsúteis, e, em estando ali, vacilo, entre o ouvido que te escuta ao telefone, e a falta de seu braço na minha cintura em toda a noite parda em que as estrelas não vêm. Amainando tudo o que flutua e fenece, há o rio, o mar, o vento alegre e o meu amor, que rebrilha à beira do tempo e trabalha, com as mãos aflitas, no conserto dos relógios e na vivência das horas. Queridos leitores, Aos que não entenderem a postagem acessem:http://naugrafias.blogspot.com/
A Henrique
Se há aí rua de frio chão, noite morta e lua escura, há aqui um jardim desolado de flores desabridas, um sol tenso, carcomendo as bordas dos dias, e estes passam equilibrados numa corda fina que apenas tangencia a sua ausência. Os ponteiros obsedados não enxergam os trilhos por onde passam as horas, esquecidos, descomem o tempo e o sol que chega anuncia um novo que se repete: longe, o tempo (este triste que marca os dias) é senil.
Há sempre olhos de não ver e bocas enormes de dentes só lâmina talhando a paisagem e narrando o mundo que à volta corre. Vejo as pessoas como num filme estranho e antigo, cinema quase mudo, personagens inconsúteis, e, em estando ali, vacilo, entre o ouvido que te escuta ao telefone, e a falta de seu braço na minha cintura em toda a noite parda em que as estrelas não vêm.
Amainando tudo o que flutua e fenece, há o rio, o mar, o vento alegre e o meu amor, que rebrilha à beira do tempo e trabalha, com as mãos aflitas, no conserto dos relógios e na vivência das horas.
Se há aí rua de frio chão, noite morta e lua escura, há aqui um jardim desolado de flores desabridas, um sol tenso, carcomendo as bordas dos dias, e estes passam equilibrados numa corda fina que apenas tangencia a sua ausência. Os ponteiros obsedados não enxergam os trilhos por onde passam as horas, esquecidos, descomem o tempo e o sol que chega anuncia um novo que se repete: longe, o tempo (este triste que marca os dias) é senil.
Há sempre olhos de não ver e bocas enormes de dentes só lâmina talhando a paisagem e narrando o mundo que à volta corre. Vejo as pessoas como num filme estranho e antigo, cinema quase mudo, personagens inconsúteis, e, em estando ali, vacilo, entre o ouvido que te escuta ao telefone, e a falta de seu braço na minha cintura em toda a noite parda em que as estrelas não vêm.
Amainando tudo o que flutua e fenece, há o rio, o mar, o vento alegre e o meu amor, que rebrilha à beira do tempo e trabalha, com as mãos aflitas, no conserto dos relógios e na vivência das horas.
Queridos leitores,
Aos que não entenderem a postagem acessem:http://naugrafias.blogspot.com/
segunda-feira, 23 de março de 2009
Do risco como possibilidade

Periodicamente pago a uma ouvinte para ser olhos, ouvidos e boca silente e miúda diante de mim, soltando cá e lá, mugidos longos e perguntas que, apenas, querem que eu continue a falar. Cada um dá a esta figura o nome que quiser: eu a apelidei de D. Benta.
D. Benta, sem uma só palavra, conversa comigo tão profundamente, que sou eu, espelhada nela, num negativo necessário e estranho, eu falo, ela ouve e eu me compreendo. Como se pudesse, a cada dia, devorar a mim mesma - silenciosa, esfaimada, mas educada e temerosa de enrolar os pés nos longos cabelos das etiquetas. Escrevo contornos de mim, deitada numa areia pesada e úmida, desenho meu nome com o corpo, sem medo da onda ligeira que possa logo suplantá-lo.
Hoje o assunto, como sempre, foram os afetos.
Lembrei-me de uma profunda incapacidade: a de manter amigos.
Tenho uma pessoa querida que certa vez me disse: "Mais de cinco pessoas, para mim, é multidão." Já eu, não. Adoro a multidão. Ando pelo shopping, vou a festas, brinco carnaval. Sou capaz de hipnotizar uma plateia estranha com um riso longo que aprendi nas novelas. Mas, para ser meu amigo, mesmo, haja insistência.
Tudo, como sempre, é culpa da mãe e da infância. Pouparei a mãe.
Culpo Renata, uma menina de cabelos pretos, longos, finos, e já sensual do alto da quinta série primária. Renata, a miserável, me escolheu para ser sua inimiga definitiva. Ria de mim e de meus cabelos sempre desalinhados. Ria de minhas merendas. Desviava caminhos para não estar camigo. Impedia que eu passasse, caso assim quisesse fazer. Renata era meu inferno.
Um dia, descobri que ela perdera os pais de uma maneira deliciosamente trágica: riquíssimos que eram, o casal entrou no carro da família na fazenda, certa vez, e foram, ambos, picados por uma cobra venenosa.
Ainda sinto uma felicidade pesada no peito por saber que ela não tinha nem pai, nem mãe. Ela era só. Entretanto, a rígida moral cristã me roubou a chance do ódio e do mal-querer. Como já disse aqui, fui criada para o amor. E amar, muitas vezes, é mais doloroso e sem retorno que odiar...Sabendo de informação tão fortemente privilegiada, eu poderia dizer a todos, responder aos apelidos, aos olhares, à chacota pelas mínimas coisas, mas, Maria estava ali, com seus olhos grandes sobre mim. O outro, morrera na cruz. E, segundo Irmã Ana Virgínia, o pecado leva ao inferno. E o inferno devia doer mais que a solidão nos cantos azulejados das Sacramentinas.
Renata me roubou para sempre a chance do risco. No nome maldito, ela renasce e reencena-se no corpo do mais gentil camarada.
Anos depois, vi Renata num shopping de Salvador. Havia parido já três vezes, seu corpo decaíra enormemente, as crianças mal-educadas lhe zuniam os ouvidos e seu olhar perdido denunciava uma dor opaca, um sem-remédio, uma estranhez.
Mas, ainda hoje, quando me lembro dela, a curva descendente da escada rolante desaparece e ela se põe, atroz, na minha frente, e, para chegar ao mundo inteiro que rebrilha por trás dela, tenho que, mais uma vez, dar a volta.
Imagem by: http://www.flickr.com/photos/jam343/1703693/ -jam343
sábado, 14 de março de 2009
Do infinito feminino

Para Eliana Mara, Ana Cládia Pantoja e Claudete Weiss
Estudei em colégio católico. Isso me fez arisca, desconfiada. Mas também me ensinou a ser um ser feito para o amor, fiel, o mais possível, ao mandamento maior: Amar ao próximo como a si mesmo. Isso me enfraquece, às vezes, as armas para o ataque, me faz juntar ofensas e raivas no fundo lamacento do rio que sou eu. Mas, isso também me premiou com um coração puro, de amor caudaloso e profundo. Um coração que ama, verdadeiramente, o outro, num a priori que se espanta com o eventual mal amor recebido...
Dito isto, informo: amo a três mulheres. Já amei mais outras muitas, mas hoje, meu amor se deposita sobre o ventre de três mulheres que merecem o meu amor, hoje, mais que as outras.
A primeira delas se queimou no próprio fogo. Bravio que é o mar que inconstante se revira dentro de si, devorando pedras, lambendo – furioso – areias, cheirando a sangue de peixes e naufrágios, mar que retém tudo e nada entrega, mar que engole macio o presente perfumado e o lixo atiçado a suas ondas delicadas. A água verteu-se em brasa, e, viva, devorou seu ventre sempre prenhe de estrelas. Mas, para além da pele aberta em flancos dolorosos, está um útero vivo, rebrilhante, de onde nascem algas verdes que acarinham as pedras, águas-vivas que voam nas espumas intangíveis, há poesia, no corpo de Mara, a marinha, que sempre chamei assim, vez muita em segredo, como se falasse de Yemanjá, a Mãe de todos os Orixás.
Recolho a outra mulher do canto de um afeto doído. Roendo, obtusa, uma dor, uma perda. Lambendo feridas, vivendo a ausência de um amado – quando olho esta dor tão desamparada, tenho medo, menos pelo amado, que não voltará desta longa viagem, mas, infantilmente, por todas as outras mulheres que se vêem refletidas neste rosto já brando de dor, inclusive por mim. Estes olhos eclipsados para o mundo que – insensível – corre à sua volta, um dia voltarão a derramar-se sobre nós fazendo, milagrosamente, rebentarem nos nossos lábios sorrisos, numa primavera de flores rubras.
A outra, prepara uma filha num ventre cheio, traz ao mundo uma irmã, uma igual, outra de nós, que nascerá miúda e, ainda que pequena atravesse a vida, marcará, como todas nós, no chão, na pele, no sangue a escrita do corpo feminino, sua travessia, sempre tão parecida e única. A mãe, continuadora de todas e de todos, tem medo da dor, teme que seu corpo esguio e delicado se modifique. Há, entretanto, no cerne deste afeto um traço já indelével: nasce uma mulher. E, para todas nós, o mundo já não será o mesmo.
Foto By Irineu Fa
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Vista a minha pele
Cena:
Vou ao SAC-Shopping Barra fazer a segunda via de meu título de eleitor. Sento e sou atendida por um senhor macilento, que "batia" ao computador as teclas uma-a-uma, len...ta...men...te.
Ele me olha de um jeito estranho, me trata de maneira um pouco licenciosa: me chama de "você".
Tento não me importar.
Após perguntar pelo meu endereço, telefone e outros dados pessoais ele indaga:
"- Você estudou até que série? Você não terminou o segundo grau, não foi?"
E complementou, sem me dar chance de responder: "Parou quando?"
E, por incrível que pareça, algumas pessoas ainda podem me dizer isso é por causa de minha cara ou idade...
Vou ao SAC-Shopping Barra fazer a segunda via de meu título de eleitor. Sento e sou atendida por um senhor macilento, que "batia" ao computador as teclas uma-a-uma, len...ta...men...te.
Ele me olha de um jeito estranho, me trata de maneira um pouco licenciosa: me chama de "você".
Tento não me importar.
Após perguntar pelo meu endereço, telefone e outros dados pessoais ele indaga:
"- Você estudou até que série? Você não terminou o segundo grau, não foi?"
E complementou, sem me dar chance de responder: "Parou quando?"
E, por incrível que pareça, algumas pessoas ainda podem me dizer isso é por causa de minha cara ou idade...
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Onde cintilam outras luzes

Para o Bem de Cacau.
Quando alguém morre não é apenas uma estrela brilhante que se finda. É um por vir que se acinzenta, esmaece e, no entanto, permanece suspenso no ar, como uma promessa, uma profecia não cumprida.
Nascemos mesmo para brilhar, mas morremos de fome sempre. E, em cada um de nós, a fome rói partes inteiras de tecidos cariados, e cada dor se encena numa tela inconsútil, numa exibição única, numa eterna estréia onde cada cena nos assalta e surpreende, não pela sua face estranha, mas pela convivência que com ela tínhamos, antes delicada.
E a pergunta que vem, inevitável é: Por que dói tanto?
E nunca importa se é a unha encravada da solidão, a dor de estômago do silêncio ou a dor de dente da espera. Sempre dói demais, e sempre é tudo muito pesado e sempre a força se revela (n)o seu contrário.
Hoje soube de uma morte. Morreu alguém que não conheci, mas vivi a felicidade de sua existência e o desamparo de seu desaparecimento.
Não há como não crer, diante disso, que esse céu vazado de estrelas que daqui vejo é apenas a máscara mal-disfarçada, de uma carne celeste outra, onde matérias iluminadas vão cintilar, agora, para sempre.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Dois mil e nove

Pois é...
Faz tempo.
É que este ano, dois mil e nove, chegou tão violento, colocando as coisas nos lugares, desarrumando outras, que tudo ficou esparramado pelas Matas, nas beiras dos Rios, espalhado no Vento.
(muita coisa que até então era importante)
Oxóssi, neste ano que é dele, entrou na minha vida violento, fazendo de meus olhos duas flechas, me dando foco, afiando minha atenção, minhas exigências...
Mas a vida, e as coisas que enfeitam, por cima, a vida, corre macia e despreocupada, feito puta nova e vocacionada.
Foto by Célia Sodré: http://www.flickr.com/photos/celiasodre/3013537653/
domingo, 30 de novembro de 2008
Dia do sim
Uma história, que já virou uma mitologia familiar, diz que, certa vez, uma menina extremamente doce, dócil, tímida e silenciosa quebrou toda uma sala, rasgou coisas, derrubou armários, emborcou carteiras, gritou e depois, passado o momento de desordem profunda (certamente muito maior do que aquela instalada ali), sentou-se, no canto da sala, com sua blusinha de escola e silenciou. Esta menina estava ainda na pré-escola do colégio Sacramentinas de Salvador. Esta menina fui eu. Foi uma Iansã pequenita, ventando medos, dores e raivas numa sala toda feita contra ela. Foi uma tromba d'água, uma Cachoeira da Pancada Grande, emancipando suas águas e lavando aquele universo tão sombrio, tão nodoso e tão familiar. Esta menina sou eu.Talvez, por conta desta menina, tenha hoje tanto pavor de escândalos. Não que não os faça. Graças a ela também tomei certo pavor do público, que estou, há anos, curando na sala de aula.
Mas o que há sempre é um medo. Um duplo meu renitente que fica pendurado nos meus ouvidos dizendo sempre não, talvez... Agora, quando decidido está que é a hora do sim, ela está murcha, catando migalhas de tempo na cadeira ao lado.
Nem sempre estamos preparados para ter coragem. O medo preserva nossa vida, mas paraliza a probabilidade, interrompe a positividade de compreender que o mundo pode ser negativo, mas há outras 50% de chance de ser positivo.
O mundo pode me dizer sim.
E eu, pequenita, silenciosa e firme, posso dizer sim ao mundo.
Então, de repente, o medo, amigo da roedora de unhas aqui ao meu lado, se viu revelado. Num labirinto sinuoso corri atrás dele, gritando. Entrei numa imensa sala de espelhos e me vi refletida nele inúmeras vezes...minhas dores multiplicadas ad infinitum.
Mas, num momento dado de esperteza de minha coragem, tomando-me toda em suas mãos vigorosas, entrei na casa do medo, escancarei sua porta, arrombei suas janelas, lavei, limpei, expulsei todo o canto carcomido por ele - vícios horríveis ele tem: milhares de relógios sempre marcando a hora que não veio; olhos imensos de ontem, de antes, de amanhã amedrontam com sua interrogação dolorosa os visitantes; perguntas que não fiz, respostas que não dei invadem meus ouvidos...
Mas vou eu dando fortes espanadas na cumieira, nas teias de aranha, derrubando casas de maribondos, vou arrumando a antiga casa do medo - agora minha - sem piedade alguma de minha antiga fraqueza.
domingo, 23 de novembro de 2008
Menina de Terreiro
Definitivamente, não fui criada no Axé. Mas Ele me criou, me alimentou, e deixou no meu sangue negro e no meu Ori um rastro cheiroso de menga, pemba, aruá. Gravou nos meus ouvidos ilás de Iansãs, abraços suados de Oxóssis, dengues e carinhos de Iemanjás e a elegância bela de minha Mãe.
Assim ficou fácil.
Meu permanente desencontro com os altares de santos brancos de gêsso frio. Meu favor pelo gosto da óstia - que devorei muitas vezes com fé, entrega e medo. Toda a aprendizagem dos meus dez anos de colégio de freiras não apagou a força profunda dos Orixás que moram dentro da minha vida e que dão ilás lindíssimos e fortes dentro de minha cabeça.
Vez muita já tive que gritar "Oke, Arô" e perguntando a minha mãe: O que é isso? De quem é isso? E, num mistério todo negro, simplesmente não saber, naquela hora, reproduzir...
Quando segui, institiva, o rastro de cheiros e memórias outras que me conduziram até meus Orixás, cheguei sem medo, entregue toda: tomo banhos frios de cheiro uterino, prendo o cabelo, uso saias imensas, tomo mordida de formiga de taboca, machuco as mãos cortando quiabo duro, varro chão, sirvo, esquecida dos títulos e dos saberes doutos, a pessoas que mastigam um português gostoso, que não é meu, mas do qual raspo migalhas e falo sem concordâncias, e sem cerimônias. Como longe da mesa, por último: faminta e feliz.
Na roça, como chamamos o terreiro quando em terra de não iniciados, viro uma menina curvada sob o peso de uma tradição que é ulterior, em muito, a mim. Bato cabeça no chão e meu corpo todo se educa, para o silêncio, para a demora...as narinas, os olhos, os ouvidos, tudo em mim se apequena, se humilha feliz e grato, diante de uma força negra, poderosa, de ventanias e lagos profundos.
Sou a Oxum bonita de meu pai. A que lhe serve nas mãos o prato e lhe pede a benção.
Sou a que é guardada e aguarda, me preparando para a hora certa.
Mergulho neste mundo de silêncio e entrega.
E há alegria sempre no meu coração.
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