sábado, 10 de outubro de 2009

Eu como potência

Num filme que eu pudesse digirir, roteirizar, editar, arte-finalizar, enfim, que estivesse sob meu absoluto poder eu estaria, projetada numa imensa tela, bem maior do que me sinto. Meus cabelos se arrastariam, encaracolados, pelas costas que, naquela personagem tão bem escrita, seriam esguias. Eu não teria medo. Eu teria mais altura, seria mais magra, meus dedos seriam mais longos e minhas palavras mais certeiras. Não precisaria de óculos, o mundo me viria todo aos olhos, num aluvião de ser e sua presença inundaria a minha visão. Ainda assim, saberia, tal como hoje sei fazer dos pães, com que ele coubesse pequeno em minha boca. Eu o mastigaria com meus dentes que, naquela história, jamais usaram aparelhos, e as palavras que eu diria sempre bateriam firmes, como um afago ou um tapa bem disferido. E eu não teria medo, nenhum.

Meu sexo seria uma flor perfumosa, que contaminaria com seu furor e beleza todo o meu corpo. Eu caminharia segura, jamais vacilaria, e seria mais amada, mais amada e mais amada. Como eu não teria mais medo, um amor violento devassaria toda a terra, vazando de pedras brutas o asfalto. E eu seria só minha e talvez assim pudesse oferecer o doce de meu sorriso ao mundo desencantado. Eu não teria medo. O mundo não me diria não. A porta estaria sempre aberta e eu, sempre livre de estar presa, pelo lado de dentro. Não haveria atrasos ou estações de metrô onde as pessoas se despedissem do que delas guardaram no olhar do outro. Não haveria morte alguma. As dores só para que, quando cessassem elas de nos morder por dentro, pudéssemos viver naquela fatia ínfima de corpo, o milagre da cura, o silêncio da saúde, e a ausência absoluta de qualquer sofrimento. E aí, já ninguém teria medo.

Eu poderia me mostrar inteira a todos. Poderia dizer sempre a verdade, ou mentir como uma criança quando descobre a mentira como uma mágica. Eu poderia me livrar dos nilimentos, eu poderia conversar com os que falam, não pagaria pelos que só me escutam. Eu teria um mundo inteiro em plena concórdia. Eu aceitaria. Eu seria aceita. Não precisaria afiar diuturnamente o aço de minhas palavras. Não sofreria por usá-las, ou por não usá-las. E eu não teria medo.

Um eu assim, como um descampado de pura felicidade, para Freud, seria  como a morte. E, em sendo assim, eu teria medo.

Preciso mesmo de um mundo que me machuque, me tranque do lado de fora, me silencie, me diga palavras perigosas, me meta um medo violento e destruidor. Preciso de pessoas a quem eu não consiga responder, preciso do gume cego de minhas palavras, preciso de minha inocência que se converte num precipício de onde me atiram. Preciso ter medo. Desesperadamente. Preciso não saber. Não por um motivo iluminado qualquer, por uma resposta que eu encontre fácil no horóscopo do dia, ou no biscoito da sorte chinês.

Preciso do medo por que ele me afia como a uma faca, ele me oferece, onde há só falta e escuro, uma luz que lampeja incerta, mas que eu prefiro chamar de vida. 

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Herança

Meu avô conhecia dos ventos que traziam marés de farta felicidade. Dentro das ondas, cortes prateados de pura cintilância viva. Ele sabia costurar sua rede de náilon fino, apesar dos ventos fortes, e guiar o saveiro imenso na brisa dolente. Certa vez, os homens ficaram todos perdidos no labirinto escuro de vento e mistério, com o barulho de água e espumas por cima. Na noite, que já se disfarçara de bordas de mar e de horizonte, o vento frio de cristalino gume lhes cortava os braços e cozinhava calmamente as locas de seus narizes. A chegada da manhã  trouxe o puro horizonte marinho. Quem costurou o retorno na asa mansa do vento foi meu avô.


Pouco me ficou de seu sangue Português de navegar constante. Longe o homem, longe o nome, longe o mar de ventura, lacrimoso e salgado, estou eu, sem fio de náilon, bússola de estrelas ou vento que me leve ao meu favor, estou perdida, no silêncio das ondas mortas, numa rota que é pura deriva.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

E ela ainda está cantando...

Diz a ciência que o mundo tende ao caos. Para além das buzinas e sua fúria, das pernas que passam ligeiras buscando o caminho, das bocas que devoram o tempo como se comessem o pão, estou eu, com meus olhos cheios de calma dúvida.

Grávida de mundo, prenhe de multidão, minha cabeça espera o melhor momento para atravessar e ver o que há na outra beira. Mas a outra beira me aponta o precipício e vozes antigas se lançam dele deixando rastros no ar pesado. É o inferno, diriam.

Não, é a vida.

Esta mesmo que busco comer com uma boca de fome: violenta. Mas que dança torta na minha boca, sobrando nos dentes, e nisso, mordo também a língua e a carne das bochechas. Mas isto também só se sabe depois.

Ainda assim não há sobras a recolher.
Não há acasos
e toda espera é apenas a lenta digestão da véspera.

sábado, 8 de agosto de 2009

Travessia

Eu não sou apenas meu nome e endereço. Um número na carteira, um espanto ou um medo. Eu sou um dos quatro elementos. Sou a água, que cabe submissa no copo, escorre no vivo das mãos, chupa a terra, desaparece e caminha abrindo veias silenciosas deslocando grãos, rasgando as pedras com a carinho mais ardiloso.

Sou a água límpida e a suja, que faz feder ventos, destilando a sua falta de misericórdia no mundo.

sábado, 18 de julho de 2009

Tecendo o manto

Meu amor vai viajar.

Arrumei-lhe as malas, montei enxoval novinho, lavei suas roupas: ele vai.

E o ir, independente do certeiro voltar, abre flancos imensos na minha cama de lençóis estranhos - precipícios, por onde mergulharão meus olhos e meu sono.

Há corpo faltando no espaço vazio: meu obstáculo amoroso que abriga e aquece. Falta um respiro que já sei, quando cansado; falta a palavra que passeia distraída pela casa buscando meus ouvidos obsedados de silêncio; as roupas a repousarem nos lugares errados; as meias como línguas pretas saindo dos sapatos e lambendo o chão.

Falta um alisar de barriga na fome e um fechar de olhos na saciedade.

Ele vai, mas ele volta. Chamarei todos os dias o seu nome no mais profundo do meu segredo.

Dia há, marcado para seu retorno. Ele vai e volta.

Mas algo há, entre os lençóis frios e a minha boca silente, que faz com que ele permaneça. Ulisses sempre redivivo, sempre Rei, amorosamente onipresente em mim.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O Amor e sua dobra

Meu irmão sempre foi uma espécie bruta. Um afeto cheio de pontas a furar o mundo.

Quando pequeno, levantava saias das freiras, lhes atiçava água, brigava feito um touro miúdo. Comigo, por outro lado, sempre foi do amor mais puro. Do amor com sua dobra mais vincada, já quase espontânea: a perversidade.

Para além das brigas, da destruição recíproca de brinquedos no 26 de dezembro e de minhas sucessivas simulações de suicídio, comumente por enforcamento, éramos amigos e ele era um companheiro fidelíssimo das aventuras na casa grande e solitária de adultos: criávamos formigas em garrafas de Run Montilla, jogávamos gude, empinávamos arraias no céu branco das dunas, hoje, derrotadas e cinzas.

Vivíamos nosso amor profundamente, rebentando, às vezes, em tapas e lágrimas logo apaziguadas.

Numa das inúmeras tardes em que nossos gritos e brincadeiras retumbavam nos corredores da casa, resolvemos comer cachorro quente. Tudo certo, não fosse a nossa trôpega compreensão do que seria tal iguaria.

Unimo-nos ante a grande assadeira de alumínio com pimenta do reino, cebolas, extrato de tomate e tudo o mais que alcançamos na geladeira. O ingrediente mais importante, no entanto, estava na rua: uma ninhada inteira de pequenos vira-latas recém nascidos, que retiramos dos peitos da cachorra - que os trocara, certamente, por um pedaço de pão seco.

(A que extremidades de amor pode nos levar a fome?)

Enfiados nos temperos, ganindo com sal e pimenta aos olhos, os animaizinhos, desesperados, tentavam sair de nossas garras inocentes. Para nós, nada parecia estranho: tínhamos fome, e eles ali estavam era mesmo para se comer.

Postos no forno, sorte deles: não sabíamos acender as chamas. Ali ficaram até o esquecimento, sempre ganindo, e sempre crus ainda.

Eles nunca maturaram o bastante para os nossos dentes famélicos.

sábado, 11 de julho de 2009

Gestação

Antes de chegar e penetrar matreiras nas asas calmas das letras, as palavras que vou escrever me cercam.

Preenchem a língua simples com que vou à padaria, fermentam dos pães, os afetos e os silêncios. Exaltam as ruas de ladrilhos vazados, lambem as dobras calmas onde dormem os mendigos, seus irmãos. Ladram pela rua cinza, pelo escuro das curvas e mastigam, calmas como as ondas, as pedras caladas com seus veios repisados.

Há sempre um ponto iluminado de areias lavadas, um espaço translúcido onde repousa o silêncio que mora em mim no antes, onde as palavras vivem a véspera, que é sempre, enquanto não se dão, generosas, ao olhar do alheio.

Na véspera, as palavras anunciam sua chegada com o sufocante cheiro das frutas maduras.

E o silêncio, vivo nas noites de rebrilhante insônia e de idéias impacientes sentadas na ponta dos lençóis, se recolhe em enxoval completo.

domingo, 5 de julho de 2009

O olho de Deus

O olho de Deus flutua estranho entre as nuvens calmas. Deus sofre, certamente, de uma insônia crônica de olhos às veias transbordantes de sangue, como rios incontidos.

Ele não ressona desfeito de Si, Ele nem cochila. Eu, que durmo atirada ao precipício dos tranquilizantes que me dão sonhos intranquilos, tenho inveja de Deus. Ia dizer que tenho pena, mas também tenho inveja.

Tenho inveja deste sonho feio Seu, vivido na lucidez da luz acesa.
Tenho pena dos Seus olhos de tudo ver, olhos embotados de tanto enxergar.

Tenho inveja e tenho pena.

Hoje, quando acordei de pesadelos estranhos que dançaram ensandecidos no palco cerrado de minhas pálpebras obsedadas, pensei neste Deus que não pode dormir.

Hoje O acolheria dolente nos meus braços, ele apequenado, cansado, eu, sua enfermeira caridosa, lhe ministraria remédios que lhe fechariam os olhos e lhe diria que, independente de sua insone vigília, o mundo continuaria a rodar torto como um pião mal-enrolado.

E ele, finalmente, dormiria com os anjos, do céu e do inferno, dizendo Amém.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Ora iê, iê, Mãe Bela!



Ando me lembrando de quando eu era feto no seu útero de água. Quando era sonho brilhando forte na pedra limosa e calma. Quando era silêncio só, e seu cabelo translúcido se emendava, nodoso, no meu.
Dentro da água traiçoeira mergulho em transe profundo, confiando minha vida, minha cabeça, meu pés às suas mãos onipresentes. Dentro da água traiçoeira entro em transe profundo, e há amor e entrega no meu coração também traiçoeiro, também profundo, mas muito mais insondável que suas águas pretas.

sábado, 13 de junho de 2009

Enterrando os mortos

A morte não é o esquecimento.
O esquecimento solapa as feridas,
abranda.

A morte não.
Ela é um silêncio esquizofrênico que,
como não sale calar,
grita.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Herdeiras de Penélope




Minha avó era mulher de pescador. Quando seu homem se costurava em barco nas dobras do mar. Quando a chuva fazia grandes cicatrizes no céu. Quando o sol não cessava de, obtuso, cruzar dia após dia o mesmo céu, ela esperava.

Eutímia escrevia sua volta nas roupas sujas que, surradas contra as pedras, aspergiam gotas como se pétalas de flores enfraquecidas. As nódoas se desfaziam na violência das pedras, mergulhavam nos rio, e este, desembocava, já doce e cândido do mar. Na volta, os peixes graúdos sobre a mesa.


Minha mãe casou-se com a vida. Era um homem em seus contornos bem limitados, mas era também a vida, um baco carioca que perdia-se na embriaguez do mundo. Trabalhava feito um feroz. E comia com as mãos sôfregas lascas inteiras de noite e de luar. E ela o esperava. Enquanto ele despegava-se das sereias outras. Quando cessava, no clarear, o samba. Quando era, finalmente, a hora de trabalhar. Ela esperava.

A porta sempre aberta a sua chegada, num feitiço muito dela, noite a dentro: porta aberta e lua alta. No certo momento, a porta rangia, se ouviam dois gritos e um silêncio. Ele chegou.


Eu casei-me com o mar de ondas e seu porto. Casei-me com o som da música e o seu silêncio. Espero sempre, como é mesmo do feminino esperar. Mas espero - e este é meu feitiço - chamando o seu nome, pelos cantos da casa, nas paredes, na mesa, na minha cama. E cada grito que dou por seu nome, mais perto chego de meu Odisseu.

Com meu chamado - sereia que sou - cessam os mares bravios, o vento se sopra a meu favor sob o céu limpo, e eis que, de pés lavados, ele aqui está.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Oração pelos meus inimigos


Querida mãe,

Como sabes, tenho pouco sangue nos olhos, raiva pouca, que se consome toda em si, sem mácula mais pra dela dizer, vez que sofro da memória para as coisas que doem. Sei que no caminho que traço, ainda que olhando atenta ao chão marcado, sempre piso cá e lá, num dedo solto de sentimento, numa aba esparramada de chinelas, piso em medos, invejas, e mais sabe-Deus-o-quê. E há sempre quem não me perdoa a existência...

Se duas broncopneumonias não me mataram, abalaram apenas os pulmões, me dando um respiro – como um choro – abafado; se atravessei quase imune mortes, perdas, desamparos; se suportei estar trancada sempre pelo lado de fora das amizades, das brincadeiras e dos olhares cúmplices; não há de ser um mal agouro, um pesar tristonho que me derrubará.

Mãe, já pensei muito em pedir perdão, confessando erros, fazendo promessas. Mas há inimigo meu que mal suporta me olhar. E tenho tanta pena de sua dor desconsolada, de seu ódio que, como um doido, se surra na escuridão, que venho pedir, não por mim, mas por eles, sua misericórdia.

Mãe, dá a estes que me odeiam, me desgostam ou, simplesmente, não se dão comigo, a oportunidade da alegria. Realiza hoje, Mãe amada, um seu desejo há muito esperado, faz para eles como se para mim fosse, e é com este coração fraterno que lhe peço.

Venho lhe rogar, humildemente, o seu Amor de Mãe para estas pessoas. E clamo por seu nome para que os tome em seus braços, os console, lhes dê o choro ou o sorriso de que necessitam para que possam eles, satisfeitos, abrigados e sanados, relevar meus erros (in)conscientes e, finalmente, se esquecer de mim

Grata estou, Mãe querida, pela sua Misericórdia.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Para mim e para todos nós

Não se preocupem, todo precipício tem,
dentro de si, um início.


"...Mas nem sempre é necessário tornar-se forte.Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima a qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda"

(Merleau-Ponty)


Deus, como venho fazendo isso...nem sempre por querer, uma vez que a tristeza vem de aluvião e domina o espaço, a cena, o olhar. Mas venho tentando me compreender, me dar a chance de ser vil, de ser menor, de não entender o mundo e as pessoas que estão por dentro dele. Ando compreendendo que sou mesmo fraca, e isto não me envergonha tanto quanto antes, sou mesmo menor, e isto não me diminui tanto diante dos outros, nem diante de mim.


Tem dias que choro até ficar branda. Tem horas em que não posso chorar, e isso é muito doloroso...tem horas em que espero, e me preparo de corpo inteiro, para a facada do inimigo, mas, aí, ele me dá um sorriso amigo tão acolhedor, que me abro primaveril, para as abelhas com seu ferrão.


O que eu mais queria, como Pequena Flor uma vez quis, era não ser devorada pelo mundo...


quinta-feira, 9 de abril de 2009

Dona Olegária



"Deus te fez, Deus te crou, Deus te livre das vistas que mau te olhou.
Com dois te botaram, com três eu tiro, com os poderes de Deus,
da Virgem Maria e de Jesus de Nazaré,
seu filho concebido sem mágoa e sem pecado."


**


Quando era pequena era cheia de achaques... Hoje ainda sou, mas não tenho mais a rezadeira que me tirava os males do corpo e os olhos de mal-olhar.


Ainda me falta, no pedaço oco da lembrança, indagar a minha mãe quais os motivos de, vez por outra, eu ser rezada. Mas o que não se pode esquecer é a sala meio escura, com Cosme e Damião ao alto, velas queimando o ar com sua fumaça preta, e os olhos daquela mulher: Dona Olegária.


Lembro, certa vez, devia ser mesmo caso de urgência, meu pai me levando nos braços e me segurando enquanto as folhas comiam meu corpo como pulgas de dentes finos, algo se ouvia da voz calejada de tanto caminhar pelas mesmas palavras, os dedos finos me dando volta no corpo, unhas desleixadas e crescidas sem regras, umas mais afiadas que as outras.


Na imagem que traço daquele espaço, vejo uma tapera de palhas estranhas, cheiro de feijão sempre ao fogo, galinhas ciscando o chão, nervosas; lembro dos vestidos sempre acinzentados de flores descoloridas e dos olhos, grandes, no seu branco contaminado por veias finas e uma bola mágica, negra e soberana brilhando na moldura meio cinza onde flutua a memória e o incenso queimado na lata de leite Ninho.


Queria, hoje de novo, Dona Olegária me rezando em voz sussurrada, me espancando com folhas já murchas e queimando minha sola dos pés no vapor cheiroso do incenso. Ali estava o antídoto para todas as dores, o espaço mágico de uma casa que se apagou, na ploriferação bacteriológica das favelas, do horizonte da casa antiga.



Judas em Sábado de Aleluia

Na casa grande, mal-dividida e sempre em construção de Nova Brasília de Itapuã, os tristes festejos da Semana Santa eram atravessados por uma ritualística profana profundamente sagrada.

Na sexta-feira, quando o silêncio retumbava cego confrontando-se com as paredes de casa, a vida se dava em passos pequenos, as cores mornas ornavam os corpos com roupas velhas, já surradas; a televisão, independentemente de sua programação, naquele dia estava escanteada, gestos brandos, fala baixa, nada de ligar a radiola ou encher a manilha, afinal, a chuva e as cores cinzas pelo céu também compunham o ritual da tristeza. A cozinha, entretanto, pulsava nas cores douradas do dendê e no som do coco seco quebrado no cimento duro para, mais tarde, triturado, regar a moqueca de peixe com caramuru (espécie de cobra d’água pescada por painho nas locas das pedras da praia de Itapuã). No prato, sempre fundo, o arroz branco e bem temperado com alho era banhado pelo caldo grosso do feijão de leite, que escorria nodoso debaixo da moqueca fumegante. Sobre eles, a farinha ajudava os dedos rápidos a pilar o bolo de pirão devorado com sofreguidão das mãos sempre limpas de mainha.

Mas nada disso acontecia antes do outro ritual, um que começava sempre com uma ligação para vovó, para minhas tias e perdurava durante toda a manhã, quando as ligações dos familiares rebentavam em lágrimas e pedidos sinceros de desculpas: sexta-feira santa é o dia do perdão. Não se briga, não se diz palavrão e quem xinga a mãe vira cavala... E aqui ressoa a voz da narradora da história da menina que destratou a mãe e virou cavala, não égua, cavala, gritando, enquanto voava por cima da casa: “cavala, cavala, cavala!”.

Quanto aos xingamentos aos pais, me parecia, estavam liberados.

Após o almoço o silêncio do filme bíblico assistido no escuro da sala era violado apenas pelo pagode sujo dos bêbados da rua, que atiçavam suas vozes desafinadas contra as janelas e portas: todas fechadas.

O sábado de aleluia despertava brilhante, de boca em boca deslizava o burburinho sobre a queima do Judas de Seu Zuza, o dono da padaria: o rico, dentre os pobres. Aguardávamos a queima da noite roendo os restos a moqueca da véspera, a esta altura mais gostosa, e já ouvindo ao longe algum som, algum riso.

À noite, painho subia conosco a rua de ladeira íngreme, no meio, uma coluna de madeira sustentava o Judas. Num dado ano ele foi batizado de Fernando J. , nome de um péssimo prefeito de Salvador. Havia, acima da boca riscada com tinta acrílica vermelha (tomada emprestada na casa de Tonho, fofoqueiro-mor e pintor do bairro), um bigode ralo que, plantado no rosto pálido feito com uma camisa velha, fazia conjunto com os óculos e a imitação de um paletó marrom, quase preto.

Saíamos alegres para ver o Judas. Antes da queima, todos admiravam o sujeito, contavam histórias escabrosas sobre sua maldade e botavam reparo sobre com quem da comunidade o tal se parecia. Era uma catarse coletiva: os homens davam pauladas nas pernas do Judas e nós, crianças, podíamos atiçar pedras nele sem medo, pois ali a vingança era a tônica, parecia que ali o que se queimava era o Judas cotidiano de cada um.

Quando finalmente se tocava o fogo e estouravam os fogos presos às mãos, cabeça e enfiados no furico do Judas, as moças maiores aproveitavam a distração dos pais e corriam para os becos para um namoro sôfrego, e desregrado, já que ali era o espaço da redenção universal e os beijos, mãos e roçar de sexos que ali se davam jamais resultariam num filho, pois que, ali, todo pecado estava automaticamente perdoado: fora já eleito o primordial pecador.

Depois, na leitura do testamento de Judas, quando o espólio feio e pobre era distribuído pela vizinhança, as mulheres que não trabalhavam de dia, também chamadas pelas que trabalhavam (de maneira absolutamente politicamente incorreta) de “nigrinhas” (ainda que não fossem negras) cheias de si, soltavam grandes e finos urros, batiam nas coxas grossas e, a cada batida, os seios fartos desabrigados de sutiã balançavam ante os olhos dos pais de família, que, certamente, fariam hora-extra ali na noite de domingo de Páscoa...

Depois, redimidos todos, lavados e salvos, retomávamos as brigas, os sons, os trabalhadores, possíveis bêbados do sábado, iam de olhos vermelhos ladeira abaixo buscar o ônibus das cinco e meia.

E o mundo se entregava a nós todos, limpo e imaculado.