sábado, 12 de dezembro de 2009

Alumbramentos

O tecido inteiro é sempre um horizonte desamparado. O que eu quero mesmo é a dobra.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Fiat Lux ou Um novo nome para o Amor

O mito que me cerca e me formou diz que, quando nasci, trouxe a luz. Na rua pobre de casas afaveladas de Itapuã, a noite dos nove meses em que estive no ventre de minha mãe eram sempre de puro breu, de uma escuridão tão verdadeira que não havia vela fraca ou candeeiro que silenciasse a sua negrura. Nestes nove meses estive recolhida, numa camarinha úmida, mais escura ainda, e vivia, no corpo negro de minha mãe, a vida que seu corpo pequeno atravessava.


Certo dia, preocupada em criar mais um filho na escuridão das dunas brancas, onde moravam boitatazes e lobisomens, minha mãe foi à Coelba e falou com o superintendente. Diante daquela mulher tão barriguda, tão pequena e de palavras vivas que pululavam sobre a sua mesa, ele não resistiu e presenteou o seu ventre largo com a luz nos postes da rua.

Quando meus olhos se abriram para as paredes pobres da casa, já havia a luz que minha mãe acendera.


Inda hoje ela vem, antes e depois de mim, acompanhando meus passos e acendendo as luzes: com isto, ela espanta os monstros que moram nos cantos, ilumina os medos que me atravancam o caminho, me aconselha firme e me guia, como a um barco de madeira nova, tangendo os mares.

sábado, 28 de novembro de 2009

Liberdade

Ir e poder entrar.
Não ser revistada,
entrevistada,
revirada.

Não me alisarem os cabelos,
Ou abrandarem meu nariz.
Não me dizerem ser morena
esta pele que herdei retinta.

Africana(mente)
Meus cabelos,
Minha pele,
Meus sonhos
têm raiz profunda:

ela atravessa oceanos,
terras cindidas de partida e chegada,
ela se forja útero de água,
ela se faz palavra que funda mundos
e se expande vigorosa de dentro de mim.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O Amor de minha mãe

A tarde deste quase-verão, abafada e quente, entrecortada de ventos que deslocam os perfis das sombras, que batem portas e enfeitam o tempo de músicas incidentais, me lembrou muito do amor de minha mãe. Simplesmente por que ele sempre foi assim, como um inverno entrecortado de primaveras. Sendo, como sempre foi, a Lei, ela se permitia algumas rupturas. Uma vez no mês - não por coincidência quando ela recebia o salário - almoçávamos no restaurante do Paes Mendonça, do Canela. Ainda trago uma decepção chorosa pelo fim daquele grande templo do amor ameno. Podíamos tanto escolher o que quiséssemos no restaurante, quanto no mercado. Mamãe sempre escolhia filé com fritas, e seu riso se iluminava egotísta e satisfeito de si: uma raridade. Depois, íamos pelos longos corredores do mercado, quase livres de seu olhar censor, escolher, cada um, um produto com preço limitado. Ainda hoje escolho o doce de leite da Nestlé, como se querendo recuperar a mãe de quadris largos e seios ainda firmes debaixo da blusa de botões.

Foi com ela que bebi cerveja pela primeira vez. Contra qualquer Juiz de menores, provei o primeiro gole lá pelos treze anos - não adianta perguntar, pois, hoje, ela certamente negaria. Havia uns bombons com licor que comíamos nas tardes de domingo, quando não havia plantão e podíamos ter uma mãe nossa, vestida de cores mais normais, jamais branco, mas sempre com as unhas curtas.

Havia ainda a praia, onde se podia devorar um mundo colorido que planava vivo pelos ares, mergulhava desengonçado no mar de luz transparente, espalhava-se em bandejas ferventes sobre a mesa, e se recolhia exausto depois do banho de cisterna, nos colchões que se espalhavam pelo chão da casa.

No fundo, muito para além do que se antes se podia ver, minha mãe era uma linda libertina. Hoje, se divisa, na velhice doce que pinta seus cabelos e confunde os olhos quase azuis de doença e de tempo, laivos sumarentos desta alegre libertinagem que sai de seu coração pequeno, contaminam o mundo com um afeto que se redobra, terno, sobre si, e banha nossas vidas em um descampado de "poder ser", intenso e sem fim!

domingo, 8 de novembro de 2009

Eu, você e uma década.

      Pelos nossos 10 anos, 2 anos depois.

Em um milésimo de segundo um organismo complexo se compreende tanto que vira simples, simples. Um segundo é tempo mais que suficiente para se perder um pôr-de-sol. Em um minuto estrelas morrem desfibradas de luz. Em uma hora nascem milhões de pessoas no mundo. E morrem outras milhões. Em um dia o sol morre aqui e renasce de olhos puxados do outro lado do mundo. Em um mês um bebê desenvolve os pulmões para respirar todo o mundo de orvalhado perfume. Em um ano envelhecemos um ano. Mas o que dizer de uma década? Em uma década caem ditadores, e nascem outros piores - ou melhores. Em uma década um movimento musical se perde solto do ouvido e da vitrola. Uma década também é tempo suficiente para as geleiras derreterem todas. Para morrerem os ursos polares. Para nossos ídolos desaparecerem. Na verdade, toda diferença da vida cabe num milésimo de segundo.

sábado, 10 de outubro de 2009

Eu como potência

Num filme que eu pudesse digirir, roteirizar, editar, arte-finalizar, enfim, que estivesse sob meu absoluto poder eu estaria, projetada numa imensa tela, bem maior do que me sinto. Meus cabelos se arrastariam, encaracolados, pelas costas que, naquela personagem tão bem escrita, seriam esguias. Eu não teria medo. Eu teria mais altura, seria mais magra, meus dedos seriam mais longos e minhas palavras mais certeiras. Não precisaria de óculos, o mundo me viria todo aos olhos, num aluvião de ser e sua presença inundaria a minha visão. Ainda assim, saberia, tal como hoje sei fazer dos pães, com que ele coubesse pequeno em minha boca. Eu o mastigaria com meus dentes que, naquela história, jamais usaram aparelhos, e as palavras que eu diria sempre bateriam firmes, como um afago ou um tapa bem disferido. E eu não teria medo, nenhum.

Meu sexo seria uma flor perfumosa, que contaminaria com seu furor e beleza todo o meu corpo. Eu caminharia segura, jamais vacilaria, e seria mais amada, mais amada e mais amada. Como eu não teria mais medo, um amor violento devassaria toda a terra, vazando de pedras brutas o asfalto. E eu seria só minha e talvez assim pudesse oferecer o doce de meu sorriso ao mundo desencantado. Eu não teria medo. O mundo não me diria não. A porta estaria sempre aberta e eu, sempre livre de estar presa, pelo lado de dentro. Não haveria atrasos ou estações de metrô onde as pessoas se despedissem do que delas guardaram no olhar do outro. Não haveria morte alguma. As dores só para que, quando cessassem elas de nos morder por dentro, pudéssemos viver naquela fatia ínfima de corpo, o milagre da cura, o silêncio da saúde, e a ausência absoluta de qualquer sofrimento. E aí, já ninguém teria medo.

Eu poderia me mostrar inteira a todos. Poderia dizer sempre a verdade, ou mentir como uma criança quando descobre a mentira como uma mágica. Eu poderia me livrar dos nilimentos, eu poderia conversar com os que falam, não pagaria pelos que só me escutam. Eu teria um mundo inteiro em plena concórdia. Eu aceitaria. Eu seria aceita. Não precisaria afiar diuturnamente o aço de minhas palavras. Não sofreria por usá-las, ou por não usá-las. E eu não teria medo.

Um eu assim, como um descampado de pura felicidade, para Freud, seria  como a morte. E, em sendo assim, eu teria medo.

Preciso mesmo de um mundo que me machuque, me tranque do lado de fora, me silencie, me diga palavras perigosas, me meta um medo violento e destruidor. Preciso de pessoas a quem eu não consiga responder, preciso do gume cego de minhas palavras, preciso de minha inocência que se converte num precipício de onde me atiram. Preciso ter medo. Desesperadamente. Preciso não saber. Não por um motivo iluminado qualquer, por uma resposta que eu encontre fácil no horóscopo do dia, ou no biscoito da sorte chinês.

Preciso do medo por que ele me afia como a uma faca, ele me oferece, onde há só falta e escuro, uma luz que lampeja incerta, mas que eu prefiro chamar de vida. 

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Herança

Meu avô conhecia dos ventos que traziam marés de farta felicidade. Dentro das ondas, cortes prateados de pura cintilância viva. Ele sabia costurar sua rede de náilon fino, apesar dos ventos fortes, e guiar o saveiro imenso na brisa dolente. Certa vez, os homens ficaram todos perdidos no labirinto escuro de vento e mistério, com o barulho de água e espumas por cima. Na noite, que já se disfarçara de bordas de mar e de horizonte, o vento frio de cristalino gume lhes cortava os braços e cozinhava calmamente as locas de seus narizes. A chegada da manhã  trouxe o puro horizonte marinho. Quem costurou o retorno na asa mansa do vento foi meu avô.


Pouco me ficou de seu sangue Português de navegar constante. Longe o homem, longe o nome, longe o mar de ventura, lacrimoso e salgado, estou eu, sem fio de náilon, bússola de estrelas ou vento que me leve ao meu favor, estou perdida, no silêncio das ondas mortas, numa rota que é pura deriva.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

E ela ainda está cantando...

Diz a ciência que o mundo tende ao caos. Para além das buzinas e sua fúria, das pernas que passam ligeiras buscando o caminho, das bocas que devoram o tempo como se comessem o pão, estou eu, com meus olhos cheios de calma dúvida.

Grávida de mundo, prenhe de multidão, minha cabeça espera o melhor momento para atravessar e ver o que há na outra beira. Mas a outra beira me aponta o precipício e vozes antigas se lançam dele deixando rastros no ar pesado. É o inferno, diriam.

Não, é a vida.

Esta mesmo que busco comer com uma boca de fome: violenta. Mas que dança torta na minha boca, sobrando nos dentes, e nisso, mordo também a língua e a carne das bochechas. Mas isto também só se sabe depois.

Ainda assim não há sobras a recolher.
Não há acasos
e toda espera é apenas a lenta digestão da véspera.

sábado, 8 de agosto de 2009

Travessia

Eu não sou apenas meu nome e endereço. Um número na carteira, um espanto ou um medo. Eu sou um dos quatro elementos. Sou a água, que cabe submissa no copo, escorre no vivo das mãos, chupa a terra, desaparece e caminha abrindo veias silenciosas deslocando grãos, rasgando as pedras com a carinho mais ardiloso.

Sou a água límpida e a suja, que faz feder ventos, destilando a sua falta de misericórdia no mundo.

sábado, 18 de julho de 2009

Tecendo o manto

Meu amor vai viajar.

Arrumei-lhe as malas, montei enxoval novinho, lavei suas roupas: ele vai.

E o ir, independente do certeiro voltar, abre flancos imensos na minha cama de lençóis estranhos - precipícios, por onde mergulharão meus olhos e meu sono.

Há corpo faltando no espaço vazio: meu obstáculo amoroso que abriga e aquece. Falta um respiro que já sei, quando cansado; falta a palavra que passeia distraída pela casa buscando meus ouvidos obsedados de silêncio; as roupas a repousarem nos lugares errados; as meias como línguas pretas saindo dos sapatos e lambendo o chão.

Falta um alisar de barriga na fome e um fechar de olhos na saciedade.

Ele vai, mas ele volta. Chamarei todos os dias o seu nome no mais profundo do meu segredo.

Dia há, marcado para seu retorno. Ele vai e volta.

Mas algo há, entre os lençóis frios e a minha boca silente, que faz com que ele permaneça. Ulisses sempre redivivo, sempre Rei, amorosamente onipresente em mim.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O Amor e sua dobra

Meu irmão sempre foi uma espécie bruta. Um afeto cheio de pontas a furar o mundo.

Quando pequeno, levantava saias das freiras, lhes atiçava água, brigava feito um touro miúdo. Comigo, por outro lado, sempre foi do amor mais puro. Do amor com sua dobra mais vincada, já quase espontânea: a perversidade.

Para além das brigas, da destruição recíproca de brinquedos no 26 de dezembro e de minhas sucessivas simulações de suicídio, comumente por enforcamento, éramos amigos e ele era um companheiro fidelíssimo das aventuras na casa grande e solitária de adultos: criávamos formigas em garrafas de Run Montilla, jogávamos gude, empinávamos arraias no céu branco das dunas, hoje, derrotadas e cinzas.

Vivíamos nosso amor profundamente, rebentando, às vezes, em tapas e lágrimas logo apaziguadas.

Numa das inúmeras tardes em que nossos gritos e brincadeiras retumbavam nos corredores da casa, resolvemos comer cachorro quente. Tudo certo, não fosse a nossa trôpega compreensão do que seria tal iguaria.

Unimo-nos ante a grande assadeira de alumínio com pimenta do reino, cebolas, extrato de tomate e tudo o mais que alcançamos na geladeira. O ingrediente mais importante, no entanto, estava na rua: uma ninhada inteira de pequenos vira-latas recém nascidos, que retiramos dos peitos da cachorra - que os trocara, certamente, por um pedaço de pão seco.

(A que extremidades de amor pode nos levar a fome?)

Enfiados nos temperos, ganindo com sal e pimenta aos olhos, os animaizinhos, desesperados, tentavam sair de nossas garras inocentes. Para nós, nada parecia estranho: tínhamos fome, e eles ali estavam era mesmo para se comer.

Postos no forno, sorte deles: não sabíamos acender as chamas. Ali ficaram até o esquecimento, sempre ganindo, e sempre crus ainda.

Eles nunca maturaram o bastante para os nossos dentes famélicos.

sábado, 11 de julho de 2009

Gestação

Antes de chegar e penetrar matreiras nas asas calmas das letras, as palavras que vou escrever me cercam.

Preenchem a língua simples com que vou à padaria, fermentam dos pães, os afetos e os silêncios. Exaltam as ruas de ladrilhos vazados, lambem as dobras calmas onde dormem os mendigos, seus irmãos. Ladram pela rua cinza, pelo escuro das curvas e mastigam, calmas como as ondas, as pedras caladas com seus veios repisados.

Há sempre um ponto iluminado de areias lavadas, um espaço translúcido onde repousa o silêncio que mora em mim no antes, onde as palavras vivem a véspera, que é sempre, enquanto não se dão, generosas, ao olhar do alheio.

Na véspera, as palavras anunciam sua chegada com o sufocante cheiro das frutas maduras.

E o silêncio, vivo nas noites de rebrilhante insônia e de idéias impacientes sentadas na ponta dos lençóis, se recolhe em enxoval completo.

domingo, 5 de julho de 2009

O olho de Deus

O olho de Deus flutua estranho entre as nuvens calmas. Deus sofre, certamente, de uma insônia crônica de olhos às veias transbordantes de sangue, como rios incontidos.

Ele não ressona desfeito de Si, Ele nem cochila. Eu, que durmo atirada ao precipício dos tranquilizantes que me dão sonhos intranquilos, tenho inveja de Deus. Ia dizer que tenho pena, mas também tenho inveja.

Tenho inveja deste sonho feio Seu, vivido na lucidez da luz acesa.
Tenho pena dos Seus olhos de tudo ver, olhos embotados de tanto enxergar.

Tenho inveja e tenho pena.

Hoje, quando acordei de pesadelos estranhos que dançaram ensandecidos no palco cerrado de minhas pálpebras obsedadas, pensei neste Deus que não pode dormir.

Hoje O acolheria dolente nos meus braços, ele apequenado, cansado, eu, sua enfermeira caridosa, lhe ministraria remédios que lhe fechariam os olhos e lhe diria que, independente de sua insone vigília, o mundo continuaria a rodar torto como um pião mal-enrolado.

E ele, finalmente, dormiria com os anjos, do céu e do inferno, dizendo Amém.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Ora iê, iê, Mãe Bela!



Ando me lembrando de quando eu era feto no seu útero de água. Quando era sonho brilhando forte na pedra limosa e calma. Quando era silêncio só, e seu cabelo translúcido se emendava, nodoso, no meu.
Dentro da água traiçoeira mergulho em transe profundo, confiando minha vida, minha cabeça, meu pés às suas mãos onipresentes. Dentro da água traiçoeira entro em transe profundo, e há amor e entrega no meu coração também traiçoeiro, também profundo, mas muito mais insondável que suas águas pretas.

sábado, 13 de junho de 2009

Enterrando os mortos

A morte não é o esquecimento.
O esquecimento solapa as feridas,
abranda.

A morte não.
Ela é um silêncio esquizofrênico que,
como não sale calar,
grita.