quinta-feira, 16 de junho de 2011

Sina

Todo mês eu sangro.
Diversa de mim,
atravesso águas brutas,
oceanos que me povoam bravios.
Expulso o que em mim excede
e do que sobra,
algo se move lívido
pulsando nas sendas de meu ventre.

Quando sangro,
o animal onde moro troca de pele
por dentro,
expurgando entranhas.

Todo mês eu sangro.
Todo mês eu singro este mar,
em que me banho.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Buscância

Precisam-se de estrelas que brilhem nos vãos do corpo,
que poluam com seu branco luminoso
a dobra opaca de que toda sou.

Paga-se bem:
em fartas moedas de silêncio,
com dores sem cura,
com sangue duro e vivo de entranhas.

Preciso de alguma luz estranha e calma.
D'algum clarão alvo e verdadeiro.
Algo que negue este estreito
onde moro em solidão.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Sem adereços

Nem tudo o que dói,
que come de olhos despertos meu sangue,
por dentro,
pisado e grosso.
Nem tudo o que grito,
ou calo,
nem tudo que cabe no baú de meus tristes guardados.
Nem tudo o que choro
pode ser
transmutado
em poesia.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A mulher e os ratos

        Ao miserável do Freud,
                que me leu antes de mim.

Amo os meus sintomas
como quem ama mais os anéis
que os próprios dedos.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Alcova

Meu corpo é todo sendas.
Nelas não caminho,
              tomo atalhos.
Afinal,
pode o oceano beber-se todo
em cada gota sua?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Temperança derrotada

Passaram as primaveras
e as pétalas adormeceram em seu perfume inútil.
Nenhuma mão as cingiu delicada.
Nenhuma lâmina bravia acordou seu sumo.
Nem laivo de sua sombra,
apenas a dor da beleza não colhida.

Finalmente
foi-se o perigo da felicidade:
passaram as primaveras e sua angústia exausta.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Pequena Canção da Vigília

Sem nilimentos e a vida à toda
o sono tem sido firme como um outro acordar:
um cão de plumosa ira a roer meus calcanhares,
um sol de luz intensa a profanar os breus de mim,
um vento contra o qual eu ando como quem luta
                     com o que não vê.

Tenho dormido sem sonhos e acordado verdadeira.

Quando fecho os olhos exaustos de ser,
a porta maciça revela-se intransponível
e descubro desemparada que,
mais que as chaves, perdi as fechaduras
e não há janela de tramela inocente,
nem buraco indecente
                 por onde lamber a névoa densa do sonho.

Mais que a dor, a noite passa e o dia rasga,
com seu falo inconsútil, as tramas da cortina.

Sobrevivo à noite e a aurora dança crua sobre a terra.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Sina

Que mais pode um poeta fazer das pedras
senão cantá-las?

Aporias do afeto

É tempo de morangos.
E de sol crepitante nas pedras da rua.
É tempo de chuvas esparsas
e palavras contidas:
céu de chumbo
para além do azul.

Tempo é das estátuas nuas
perfilharem os mendigos miúdos e
desmatriados.

É tempo de espera,
de silêncio,
de sangue sem carne,
de olhos de galo cantando o mundo.
Sim.

É tempo de morangos.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Romance

A palavra resvala dura
na carne de meu afeto.
(se dói e à noite não durmo,
ao menos fico límpida e delicada)

Nas distâncias que rebrilham sutilezas
Ouço seus olhos:
                            fina pétala magoada.
Sua voz a si mesma devora
famélica e desesperada.

E correntezas de brilho triste
cortam minha face desconsolada.

Findo nosso enlevo,
desperta o mundo:
E pela janela reluz o dia
tenso de borboletas.
e sinto,
nas narinas,
o hálito bruto da primavera.





Poema produzido na minha aula de criação literária, a pedido-desafio de meus criativos. Oficina: os objetos. Título original: Pelo telefone.

sábado, 21 de agosto de 2010

Gênesis

Hoje há tanto desejo,
tanto caos,
e tanta espera

que sinto que poderia escrever o mundo,
com esta voz triste de poeta.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Reverência ao mar

                                
                       
                               O oceano se banha nas próprias águas, Cacaso


O tempo é de homens partidos
                      e de corações partidos.



Mas, o meu olhar é de profunda
                                                              

                                                                          Contemplação.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Musas Inspiradas

Amigos,

Vou aqui anunciar um lançamento, ou melhor, dois lançamentos que me deixam muito feliz. Ângela Vilma em "Cartas para Antônio" e Mônica Menezes, com "Estranhamentos". Será um gosto compartilhar este momento com elas, que são duas musas absolutamente inspiradas.

Não percam!
Um beijo amoroso nas duas!!!!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Irmanados

Sua palavra era uma só: vento que não fazia curva, faca pura lâmina atravessando minha carne. E eu sangrando. Sua palavra, uma, só. Muitas vezes me matou. Uma só, quando dizia me amar. Uma, quando me chamava pelos apelidos mais delicados e a mesma, quando meu nome inteiro e frio luzia triste entre seus dentes raivosos. E minha carne sangrando. Quando pequeno suas mãos sempre um tanto trêmulas destrinchavam brinquedos desfazendo-os de seu encanto frágil para saber apenas como funcionavam, sem jamais conseguir devolver a eles nem sombra pálida de sua vida. A mim, me desmonta como a uma boneca de juntas duras, daquelas baratas. Tão fáceis de remontar. Mas suas mãos, também de lâmina aguda, quanto mais buscam me devolver as penas e os braços, vão me ferindo tanto, e de tantas formas, que não há, em milímetro algum de minha pele triste, marca ou dor que com ele eu não possa compartilhar.

domingo, 18 de julho de 2010

Orumalé

Minha Mãe não me pediu um presente. Ela me cobrou o orumalé quase que como uma multa. Não. Mais, como uma lição. Em cada pedra brilhosa, no espelho que reflete e devolve ao mundo o que ele me dá, em dobro, duplicado que era; nas contas coloridas, nos enfeites. O que queria Oxum, mais que o presente bonito, mais que a sua mais amada refeição era me dar de volta: devolvida, revivida a minha fé. Não apenas o crer vazio de horizontes de quem dá e espera. O que ela deseja eu tenho pra dar: uma atenção cega de quem entra num rio de água preta sem medo do mistério, posto que sou eu também oculta e delicada.




A esta hora a Sereia mergulha iluminada, castanha e um pouco mais dourada, mais amada, mais minha tendo assegurada a certeza limpa de que eu sou dela. Vejo minha Mãe, a dona da beleza, perfumada de alfazema com brincos pendurados a não mais poder, pérolas rebrilhosas de puro amor, de pura entrega. Suas pulseiras ela banha antes de a mim mesma banhar e nisso não há dor, desamparo ou tristeza posto que também sou uma jóia sua, amada.



Mamãe canta seu ilá melodioso, feliz, no alto de minha cabeça, aturde o mundo diante de mim, me toma, me ocupa. Oxum é a mãe dourada da beleza, da riqueza, da gestação. O orixá da água, da fartura, da vida. Uma deusa que se bebe numa quartinha assim, de barro tão translúcido, que eu penso ser também, de um escuro nodoso e lindo, todo o mundo.