segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Orisa didê

Arranca as percatas de seu cavalo
e nele galopa com os pés no chão.
Solta um grito que se espeta no alto
e,
repetido,
saúda a terra com a majestade de sua presença.

Dança sem a calma das horas,
pois seus braços se erguem para fora do tempo.

Caminha com sua carne de mito
e, quando vai, não parte.
Apenas se banha em seu próprio mistério.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O caso do Vestido


De tempo e traça meu vestido me guarda.”
                                 Adélia Prado

Meu corpo não respeita as estações.
Chove grosso em cada dobra da cidade
E eu trago comigo um vestido de verão intempestivo.
 

Meu corpo não cede e, vivo, arde no ligeiro das rendas,
nas maresias que lambem o ar.
Meu corpo não cede.

E o vestido que me desveste neste calor temporão
é todo bordado na minha pele:
por dentro.

Freudiana II

Segurar uma mãe na unha!
Ou nos fios da telefônica
       - que filtram sua voz no vazio.

Prender a mãe,
escalar suas pernas,
premir seu seio macio.

Comer do corpo da mãe,
lamber seu regaço.

Devorar a mãe na ausência
nos fios de seus cabelos,
no perfume que colore o ar.

Devorar a carne da mãe sanando,
com mãos urgentes,
a fome de todos os tempos.

O desamparo de todos os filhos

quarta-feira, 8 de agosto de 2012


POEMINHAS DE AMOR SEM ENFEITE NENHUM
                                           Para A.P. 

Do despertar

Ele acorda sem dar uma só palavra:
O primeiro caminho de voz é para o Orixá.
E eu fico posta na cama, tremendamente humana,
enquanto meu corpo o espera sem calma.



Cotidianos

Ele tomou para si minha mania de planos e listas.
Assim, enquanto eu varo madrugadas
destrançando os fios de seus cabelos
e bêbada do cheiro de sua pele,
ele rascunha no ar o roteiro de nossa felicidade.



Medo

Quando o dia está muito escuro,
e chove em cada dobra do mundo.
Ele abraça a minha mão.



Segredos

O que partilhamos, multiplicando estrelas no nosso céu,
não nos divide.



Beleza

Meu homem é muito bonito: seu corpo é negro e esguio.
Seus cabelos perfumosos dançam no seu dorso largo.
E ainda há os olhos, e sua boca castanha e absoluta.

Mas, sob o manto de toda a beleza,
Há uma camada de boniteza
Que só eu conheço:
por que ele mora em mim.       



Sorriso

Algumas flores só os meus olhos recolhem.



Primaveras no lençol

Trago flores nos cabelos, dependuradas nas roupas, tatuadas no corpo.
Mas a flor mais delicada,
que guardo sob algodões e sedas,
 só desbrocha nos lábios de meu bem.


terça-feira, 24 de julho de 2012

Um poema em seu nome



             Para Ailton Pinheiro Júnior
                     
Como chamar este algo
que se dobra na dobra de sua orelha,
e deixa minhas noites insones
enquanto navegamos?

Seu cheiro que me lambe as narinas,
e mora no tecido fino destes travesseiros
onde dança sua juba domada
como um leão apaziguado em sua morada.

Este algo que dorme no nosso silêncio,
que se move no breu de nossos desejos,
algo que se exala na sua presença
que ilumina os dias e ofusca o sol?

Como se chama?

Como chamar este dia brando que se ergue?

Este gesto, esta voz que canta maresias em meu corpo?

Não há palavra que abrigue
este mundo delicado em que moramos:
qualquer nome cede ao vazio,
na fibra fina de sua presença.


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Inominado



Lívia Natália

Algo do que ainda dói é impartilhável.
A ferida se aprofunda escalavrando os meus véus,
a dor me descobre inteira, nos meus guardados mais femininos,
e mais humanos.

Eu choro frágil, e ando pelas ruas de olhos inchados.
Mas ninguém percebe, continuo tendo pés de bailarina,
e tudo que sangra se esconde sob as cores outras com que desfilo.

Vivo com um silêncio desconsolado que mora nas dobras de meu cabelo,
Dança nos meus vestidos, nos vincos de minhas mãos.
E ninguém percebe esta ferida que sangra pra dentro.
Apesar da cicatriz.

domingo, 18 de março de 2012

Freudiana


No mais fundo dos homens que amo
há meu pai, com sua carne de maresias.
Ele se desenha na pele dos meus homens
como o mar inscreve, no peixe, as escamas.

(Todo corpo em que derivo absorta
tem algo de sua voz pedregosa.)

Nas peles negras em que me banho
flutua sua existência de maré:
prenhe de naufrágios.

Aos pés destes timoneiros delicados
que pensam singrar minhas águas
sou a kianda-sereia,
um coral espelhado,
sou a ostra que se desmora em silêncio.

Sou a água eternamente translúcida.
Precipício denso de onde estes peixes bebem
- apenas -
um silêncio delicado.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Canto para Antonio

Relendo o livro de Ângela Vilma, "Poemas para Antonio", não consegui resistir e escrevi o meu poema para Antonio:


Canto para Antonio,

                        Para Ângela Vilma

Eu te amo, Antonio, e a sombra de seu nome faz rebentar as sutilezas.
Nada silencia na primavera bravia que se desperta nos meus dentes,

E pássaros voam famintos em busca de alguma luz.
 

Eu te amo, Antonio, e os vincos de seu rosto lambem minhas madrugadas.
A lua se deita nos mares, a água se tinge de negro

e tudo resvala no cobalto das maresias.


Eu te amo Antonio, e me mergulho nos poros vermelhos de tua língua,
Me embrenho nas matas de seus cabelos crespos,

Caçando as esperas caracoladas de sua demora.


Eu te amo, Antonio,
e nada apazigua esta sede que é a tua véspera.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Do desejo

Porque há desejo em mim
tudo é cintilância
        Hilda Hilst

Alguns poemas não podem ser escritos.
Posto que os escrevo com a tinta da vida,
com o sangue dos dias,
e não posso sangrar certos mares.

Resta-me dizer da violência do sol
lambendo as bordas das nuvens.
Falar de minha alma sedenta de luz
e rasgar a pele das páginas,
maculando o branco resoluto.

Tudo é desejo e cintilância.
E a vida corre macia
como tua língua,
nas minhas coxas.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Negridianos

             Para Cuti, Limeira e Guellwaar Adún

Há uma linha invisível,
lusco-fusco furioso dividindo as correntezas.
Algo que distingue meu pretume de sua carne alva
num mapa onde não tenho territórios.

Minha negritude caminha nos sobejos,
nos opacos por onde sua luz não anda,
e a linha se impõe poderosa,
oprimindo minha alma negra,
crespa de dobras.

Há um negridiano meridiando nossas vidas,
ceifando-as no meio incerto,
a linha é invisível mesmo:
mas nas costas ardem,
em trilhos rubros,
a rota-lâmina destas linhas absurdas que desenhas
enquanto eu não as enxergo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Abandono

                     Para meu pai

Meu amor tem os dentes cariados,
transpira por todos os poros,
paga poucas contas
e será despejado.

Meu amor criou barriga
e anda arqueado.

(Arrumou uma amante na esquina,
agora nos vemos pouco.)

Meu amor chega atrasado,
ou nem chega:
todos os barcos ancoram,
mas meu amor se demora.

Piratas lhe irromperam a rota?
Nereides o beijaram perfumosas?
O mar, com seus cabelos, o trançou?

Enquanto espero, tudo é horizonte
e adivinho seu rosto antigo
na anatomia das pedras.

domingo, 20 de novembro de 2011

Poema-ebó (pelo 20 de Novembro)


Dono das encruzilhadas,
morador das soleiras das portas de minha vida,
Falo alto que sombreia o sol:
Exu!

Domine as esquinas que dobram
o corpo negro do meu povo!

Derrama sobre nós seu epô perfumado,
nos banha na sua farofa
sobre o alguidá da vida!

Defuma nossos caminhos

com sua fumaça encantada.
Brinca com nossos inimigos,
impede, confunde, cega
os olhos que mau nos vêem.

Exu!

Menino amado dos Orixás,
dou-te este poema em oferenda.
Ponho no teu assentamento
este ebó de palavras!

Tu que habitas na porteira de minha vida,
seja por mim!
seja pelos meus irmãos negros
filhos de tua pele ébano!
Nós, que carregamos no corpo escuro
os mistérios de nossas divindades,
te vemos espelhado nos nossos cabelos de carapinha,
nos traços fortes de nossas faces,
na nossa alma azeviche!

Mora na porteira de nossa vida,
Exu!
Vai na frente trançando as pernas dos inimigos.
Nos olhe de frente e de costas!

Seja para nós o que Zumbi foi em Palmares:
Nos Liberta, Exu,
Laroiê!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Onde o espelho?

                                   Para minhas irmãs negras
                        
Este cabelo que lhe vai liso sobre a carapinha,
é o simulacro infeliz do que não és.

(Ao vestir-se com a pele do inimigo
o que de ti silencia e se perde?
Quantos animais conheces
que assim o fazem senão para reagir?)

Este cabelo pesa desfeito sobre sua carapinha.
Veste-a como um manto impuro
abafando o preto caracolado
sobresi dobrado:
filosófico.

Os fios se endurecem como cavalos açoitados,
e bradam da morbidez desta couraça
que te mascara branca.

Este cabelo requeimado e grotesco
sepulta o que em ti há de mais belo.
A dobra também é uma forma
de Ser.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Poema inédito

Oração

Se um dia deste meu ventre
brotarem árvores-filhos
que sejam fortes como os livros
a que tanto amo.

Que eu possa morar
nas dobras de suas páginas
e me escrever nas suas margens,
(como num rio)
que eu mergulhe em suas sendas minúsculas,
como nas entranhas das palavras.

Que meus filhos me amem,
como meus livros
e que não fiquem apriosionados
nas minhas estantes!

Que mais que páginas
tenham pés e asas,
que voem brutos
desenhando sombras nos céus.

Que meus filhos possam olhar meus retratos
e que possam ver,
para além da beleza possível,
os olhos da mãe improvável.

Que deste ventre nasçam
mais que filhos-palavras,
corpos carne e sangue
donos de minha mais profunda
e ineludível substância.

Água Negra

Chove muito na cidade.
No asfalto betumoso um sangue transparente,
ora de um rubro desencarnado,
ora encardido de um cinza nebuloso,
é vomitado em cólicas
por toda a parte.

Das paredes duras vaza um mais escuro que,
imagino,
seja a água mordendo as estruturas.

A água é assim:
atiçada do céu,
infinita no mar,
nômade no chão pedregoso,
presa no fundo de um poço imenso:

a água devora tudo
com seus dentes intangíveis.