terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Abandono

                     Para meu pai

Meu amor tem os dentes cariados,
transpira por todos os poros,
paga poucas contas
e será despejado.

Meu amor criou barriga
e anda arqueado.

(Arrumou uma amante na esquina,
agora nos vemos pouco.)

Meu amor chega atrasado,
ou nem chega:
todos os barcos ancoram,
mas meu amor se demora.

Piratas lhe irromperam a rota?
Nereides o beijaram perfumosas?
O mar, com seus cabelos, o trançou?

Enquanto espero, tudo é horizonte
e adivinho seu rosto antigo
na anatomia das pedras.

Um comentário:

  1. Lívia minha querida, que poema mais incrível, me tocou profundamente!!!
    Amo seus poemas.
    Taty

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