domingo, 18 de março de 2012

Freudiana


No mais fundo dos homens que amo
há meu pai, com sua carne de maresias.
Ele se desenha na pele dos meus homens
como o mar inscreve, no peixe, as escamas.

(Todo corpo em que derivo absorta
tem algo de sua voz pedregosa.)

Nas peles negras em que me banho
flutua sua existência de maré:
prenhe de naufrágios.

Aos pés destes timoneiros delicados
que pensam singrar minhas águas
sou a kianda-sereia,
um coral espelhado,
sou a ostra que se desmora em silêncio.

Sou a água eternamente translúcida.
Precipício denso de onde estes peixes bebem
- apenas -
um silêncio delicado.

6 comentários:

  1. sempre continuamente bela sua poesia

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  2. Obrigada Aeronauta e Thai. Acho que este poema abarca a todas nós, mulheres.

    Um beijo!

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  3. [da palavra que se refaz recipiente das águas,

    placentas, das nuvens, dos rios sem margem
    águas tantas e barrentas, de tanto mar,

    de tanto que nos banham, nessa imensidão
    de mar e coração esperanto.]

    um imenso abraço, Lívia

    Leonardo B.

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  4. Estou lendo o seu livro. Seu doce e belo livro...
    Não consegui manter uma ordem, de forma que já li o final e o início e já reli alguns inteiros e outras tantas linhas...
    As águas me têm transbordado. Vez em quando eu paro e volto. Bóio - não sei nadar, salvo em rasas. E as suas águas são profundas...
    Sinto-me encantada... como num ritual sagrado de batismo.
    De todas as coisas que eu sou, a que mais sou de todas é negra. Como água... mas eu só sei ser, e lamento... Lamento não ter aprendido direito a dizer quase nada sobre isto.
    Estou em luta constante para aprender a me defender desde que percebi que negra é tudo o que sou e que o mais, todo o resto cresceu ao redor disto. Seu livro está ajudando.
    Faz algum tempo, desde que decidi me descobrir, que venho sendo alvo de ataques constantes. Estranhos, conhecidos e até amigos! A minha guarda anda sempre vigilante - não que eu queira, mas porque dói mais ser atingida. E eu, sempre que posso, não permito.
    Não quero ferir, só ser. Disso não entendem. "A gente só pode ser aquilo que é." (Sobral, Cristiane)- Estou lendo também. Preciso muito ler, tenho sede! Andei por muitos anos sobre terras ressequidas... E quero agora aprender a mergulhar. Quero ver para além da superfície.
    Beijos,
    Sueli Belmonte.

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